A partir de uma reflexão crítica
acerca da prática educacional no ensino público pode-se verificar que a visão
de escola para o modelo tradicionalista é aquela voltada apenas para a
instrução, ignorando que além do conhecimento transmitido ela é um local
político e cultural. Desta maneira, para os teóricos críticos da pedagogia
crítica, assim como Henry Giroux a escola é uma espaço público que possibilita
o aprendizado e as habilidades necessárias para viver em uma democracia de
fato. A construção da escola como esfera pública democrática se dá em torno de
investigação crítica que dá sentido ao diálogo e à atividade humana.
Conforme o teórico crítico Henry
Giroux para que o discurso democrático fomente na esfera do ensino público e
deveras valorize o diálogo e as atividades em que relacionam escola-sociedade
faz-se necessário que aconteça de forma democrática também a relação professor
aluno. E que não aconteça a reprodução dos antepassados, reprodução de opressão
e autoritarismo, ou seja, o papel que o professor poderia desempenhar é de
intelectual transformador desenvolvendo uma pedagogia, ou uma forma contra
hegemônica, como argumenta GIROUX (1997, p. 28-29):
Contra hegemônica que não apenas fortalecem os
estudantes ao dar-lhes o conhecimento e habilidades sociais necessários para
poderem funcionar na sociedade mais ampla como agentes críticos, mas também
educam-nos para a ação transformadora [...] educá-los para assumirem riscos,
para esforçarem-se pela mudança institucional e para lutarem contra a opressão
e a favor da democracia fora das escolas[...].
Desta maneira, pode-se afirmar que o
professor enquanto intelectual que atua na educação e que desempenha uma função
social e política deve priorizar o ensino ou a escola democrática atuando como
transformador, buscando através da reflexão e ação no interesse coletivo
fortalecer seus alunos com as habilidades e conhecimentos necessários, sendo
críticos e atuantes na sociedade.
O fato preocupante é que se formos
repensar a linguagem da escola percebe-se pouco diálogo acerca as escolas e a
democracia, o que está mais em pauta é satisfazer as necessidades industriais e
contribuir para a produtividade econômica, no caso como se a escola fosse uma
fábrica de pessoas voltadas a satisfazer o capitalismo, ou seja, “a necessidade
de desenvolver-se, em todos os níveis da escolarização, uma pedagogia radical
preocupada com a alfabetização crítica e cidadania ativa deu lugar a uma
pedagogia conservadora que enfatiza a técnica e a passividade.” (GIROUX. p.
33). A solução para tal problema seria encontrar um meio a fim de transformar
ou tornar a escolarização significativa de forma a possibilitar aos estudantes
uma educação voltada à formação de cidadãos ativos e críticos.
Sendo assim a escola deve ser vista
ou deveria ser vista, como um local tanto instrucional como cultural e o
conhecimento por ela repassado valioso pelo poder que possui como modo de
análise crítica e de transformação social. Para Giroux p. 39:
O conhecimento torna-se importante na medida em que
ajuda os seres humanos a compreenderem não apenas as suposições embutidas em
sua forma e conteúdo, mas também os processos através dos quais ele é
produzido, apropriado e transformado dentro de ambientes sociais e históricos
específicos.
Para
que esse argumento seja concretizado na escola faz-se necessário ter
profissionais voltados para este tipo de conhecimento, professores que não
apenas reproduzam modelos de ensino que já estão ultrapassados e que não surtem
mais nenhum efeito, ou que surtem, mas seu efeito é estudantes passivos diante
dos problemas. Em vez de estudantes ativos, que pensam criticamente e
compreendem a necessidade de lutar individualmente e coletivamente por uma
sociedade mais justa. Conforme o excerto:
As escolas precisam de professores com visão de futuro
que sejam tanto teóricos como praticantes, que possam combinar teoria,
imaginação e técnicas. Além disso, os sistemas escolares públicos deveriam
cortar suas relações com instituições de treinamento de professores que
simplesmente formam técnicos, estudantes que funcionam menos como estudiosos e
mais como funcionários. Esta medida pode parecer drástica, mas é apenas um
pequeno antídoto quando comparada com o analfabetismo e incompetência crítica
que estes professores com freqüência reproduzem em nossas escolas.
(GIROUX, 1997. p. 40).
A partir dos anos 60, 70 houve um movimento
de novos sociólogos que se uniram para pensar em um meio de fazer uma reforma
no ensino na escola especialmente no desenvolvimento curricular ( na disciplina
de estudos sociais) por estar faltando aos educadores a compreensão de que a
escola é de fato uma instituição sócio- política. Os educadores reformistas
embasaram-se na falta de preparação dos professores e materiais curriculares
que superestimavam a capacidade cognitiva dos estudantes. Os educadores
focalizaram criticamente uma série de suposições a cerca das interações e sala
de aula e encontros sociais e com isso levantaram o questionamento: “ o que se
aprende nas escola?”.
Seguindo as reflexões de Giroux na
escola o estudante aprende mais do que simplesmente conhecimento e habilidades
instrucionais, ou seja, ele aprende muito mais do que está no currículo formal.
O estudante aprende normas, princípios de conduta por possuir, a escola, uma
função social.
Muito se têm discutido, pesquisado e
analisado sobre a questão da educação, em especial sobre os movimentos e seus objetivos; que meso questionado sempre
trouxeram alguma luz à complexidade do ensino. Neste caso Giroux aborda o
movimento Behaviorista e humanista que para ele nem um nem outro fazem relação
entre conhecimento de sala de aula e categorias socialmente construídas:
Nem os humanistas nem os behavioristas reportaram-se
adequadamente as barreiras que impedem a compreensão e diálogo humano acerca do
relacionamento entre o conhecimento socialmente construído e as dimensões
normativas da interação em sala de aula. (Giroux, p. 81)
De fato, para que os estudantes compreendam o
conhecimento como sendo fundamental e este seja significativo em sua aprendizagem,
as escolas têm que possuir isso claro em seus objetivos, de maneira que consiga
oportunizar aos estudantes a compreender a natureza política do processo de
ensino quanto a usá-lo aplicando a crítica e análise que os ajudarão quando
deixarem a sala de aula e ingressarem na sociedade mais ampla. Sendo assim, as
escolas incitarão as experiências educacionais de seus alunos, que esclarecerão
a riqueza política e complexidade social da interação entre a que é aprendido
na escola e s experiência da vida cotidiana.
Assim, a escola deverá priorizar em
primeiro momento a alfabetização de seus atores, mas não basta somente
priorizar o saber ler e escrever, a alfabetização deve ser pensada de forma que
o estudante aprenda a ler sim, mas criticamente, que consiga decodificar seus
mundos pessoais e sociais, ou seja, o conhecimento deverá ser compreendido como
força mediadora entre as pessoas.
O sujeito deverá ser envolvido pela
aprendizagem ao realizar o seu estudo, ou seja, tanto o aluno quanto o
professor deverão ser vistos como intelectuais transformadores. O ato de
estudar, o faz intelectual e com isso sempre formam e transformam alguma coisa
ou alguém ao seu redor ou no lugar onde vivem.
É assim que o lugar do aprendizado
mais especificamente a escola, deveria ser reconhecida, como um espaço em que o
aluno compreenda as práticas sociais e culturais que acontecem em seu entorno
com criticidade, criando a possibilidade de poder se manifestar, expondo o que
pensa de forma inteligente e transformadora. Como argumenta Giroux 1997, p.
138: “Os educadores críticos precisam fazer mais do que identificar a linguagem
e valores das ideologias corporativas manifestas no currículo escolar; eles
precisam desconstruir os processos através dos quais eles são produzidos e
postos em circulação”.
Ainda sobre tal processo Freire é
citado por Giroux 1997, p. 146-147, com o seguinte argumento:
A educação inclui e vai além da noção de
escolarização. As escolas são apenas um local importante no qual ocorre a
educação, no qual homens e mulheres tanto produzem como são produtos de
relações sociais e pedagógicas específicas. A educação representa tanto a luta
por significado quanto uma luta em torno das relações de poder.
Contudo, a educação se faz na
convivência, na relação dialética dos sujeitos entre si que relacionam dentro
de certas condições históricas e limitações estruturais específicas, de outro
lado de uma sociedade que se forma a partir de formas e ideologias culturais
que contradiz às outras.
Percebendo-se o quanto complexo se
torna a prática da educação, pode-se dizer que cada vez mais se faz emergente
que os educadores devem ter um comprometimento apaixonado, que consiga tornar o
político mais pedagógico, e assim acreditar que educar é humanizar, alertando
desta maneira os aprendizes de que não se deixe levar, não se deixe dominar por
discursos não convincentes. Os estudantes devem aprender a usar o seu próprio
discurso e ter uma visão mais crítica acerca da sociedade em que fazem parte
sendo indivíduos ativos e construtores de sua própria história.
Com isso, muitas mudanças
educacionais ainda serão desafiadoras ou ameaçadoras aos profissionais da
educação, uma vez que historicamente certas ideologias já estão constituídas e
enraizadas na sociedade e parece que qualquer movimento que o contrarie é
motivo de preocupação. Muitas vezes certas reformas educacionais privam o
professor da escola pública de oferecer ao estudante uma liderança intelectual
e moral. Percebe-se isso no argumento de Giroux, 1997, p. 157:
Muitas das recomendações que surgiram no atual debate
ignoram o papel que os professores desempenham na preparação dos aprendizes
para serem cidadãos ativos e críticos, ou então sugerem reformas que ignoram a
inteligência, julgamento e experiência que os professores poderiam oferecer em
tal debate. Quando os professores de fato entram no debate é para serem objeto
de reformas educacionais que os reduzem ao status de técnicos de alto nível
cumprindo ditames e objetivos decididos por especialistas um tanto afastados da
realidade cotidiana da vida em sala de aula.
Analisando
o argumento de Giroux, percebe-se o quanto complexo se torna a atividade
docente, e com isso cada vez mais o professor perde perante a sociedade o seu
papel de praticantes reflexivos e de certo modo de intelectuais
transformadores. Há uma crescente desvalorização e desabilitação do trabalho do
professor, pois, de forma acelerada ideologias instrumentais são desenvolvidas
que enfatizam uma abordagem tecnocrática para a preparação dos docentes e
também para a pedagogia se sala de aula. Materiais prontos que fere muitas
vezes a moralidade do professor, instruções que nada tem a ver com a realidade
tanto do professor quanto do aluno, desvalorizando-os e fazendo-os crer que são
incapazes de pensar. Como afirma Giroux, 1997, p. 161: “A noção de que os
estudantes têm histórias diferentes e incorporam experiências, práticas
lingüísticas, culturas e talentos diferentes é estrategicamente ignorada dentro
da lógica e contabilidade da teoria pedagógica administrativa”.
Pensar diferente do descrito acima é
o que nos leva a refletir sobre atividade docente. Leva-nos a pensar no
professor como um intelectual que possui a capacidade humana de integrar o
pensamento e a prática e assim serem transformadores de certas ideologias que
somente os desvaloriza.
Para isso, é importante que os
professores exerçam sua atividade com responsabilidade ativa sobre o que estão
ensinando, pois são eles responsáveis pela formação dos propósitos e condições
de escolarização. Os educadores devem ser reconhecidos como promotores de
mudanças. Para o teórico em estudo o professor deve trabalhar para criar
condições que dêem aos estudantes a oportunidade de tornarem-se cidadãos que
tenham o conhecimento e coragem de lutar a fim de que o desespero não seja
convincente e a esperança seja viável. Apesar de parecer uma tarefa difícil
para os educadores, esta é uma luta que vale a pena travar. Proceder de outra
maneira é negar aos estudantes a chance de assumirem o papel de intelectuais
transformadores. ( GIROUX, 1997, p. 163).
Para finalizar meu esboço acerca
deste importante debate que ainda será assunto para longos anos no que se
referir as mudanças educacionais, quero destacar aqui o quanto difícil é a
tarefa de proceder como intelectual transformador. Pois, somente quem exerce
sua atividade docente em uma escola pública, cheia de problemas estruturais,
encarando uma sala de aula lotada com alunos que em sua maioria não recebem na
família valores necessários para poderem ter uma convivência amistosa com
colegas e professores, é que sabem realmente o que é ser professor. Ser professor
é sentir, é viver com seu aluno aquilo que jamais imaginou viver. É doar seu
corpo, sua mente ... para poder conquistá-lo e talvez daí, conseguir ser
admirado por ele.
LUCIMARA DE CASTRO BUENO
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