quinta-feira, 13 de outubro de 2016

OS PROFESSORES COMO INTELECTUAIS



            A partir de uma reflexão crítica acerca da prática educacional no ensino público pode-se verificar que a visão de escola para o modelo tradicionalista é aquela voltada apenas para a instrução, ignorando que além do conhecimento transmitido ela é um local político e cultural. Desta maneira, para os teóricos críticos da pedagogia crítica, assim como Henry Giroux a escola é uma espaço público que possibilita o aprendizado e as habilidades necessárias para viver em uma democracia de fato. A construção da escola como esfera pública democrática se dá em torno de investigação crítica que dá sentido ao diálogo e à atividade humana.
            Conforme o teórico crítico Henry Giroux para que o discurso democrático fomente na esfera do ensino público e deveras valorize o diálogo e as atividades em que relacionam escola-sociedade faz-se necessário que aconteça de forma democrática também a relação professor aluno. E que não aconteça a reprodução dos antepassados, reprodução de opressão e autoritarismo, ou seja, o papel que o professor poderia desempenhar é de intelectual transformador desenvolvendo uma pedagogia, ou uma forma contra hegemônica, como argumenta GIROUX (1997, p. 28-29):
Contra hegemônica que não apenas fortalecem os estudantes ao dar-lhes o conhecimento e habilidades sociais necessários para poderem funcionar na sociedade mais ampla como agentes críticos, mas também educam-nos para a ação transformadora [...] educá-los para assumirem riscos, para esforçarem-se pela mudança institucional e para lutarem contra a opressão e a favor da democracia fora das escolas[...].

            Desta maneira, pode-se afirmar que o professor enquanto intelectual que atua na educação e que desempenha uma função social e política deve priorizar o ensino ou a escola democrática atuando como transformador, buscando através da reflexão e ação no interesse coletivo fortalecer seus alunos com as habilidades e conhecimentos necessários, sendo críticos e atuantes na sociedade.
            O fato preocupante é que se formos repensar a linguagem da escola percebe-se pouco diálogo acerca as escolas e a democracia, o que está mais em pauta é satisfazer as necessidades industriais e contribuir para a produtividade econômica, no caso como se a escola fosse uma fábrica de pessoas voltadas a satisfazer o capitalismo, ou seja, “a necessidade de desenvolver-se, em todos os níveis da escolarização, uma pedagogia radical preocupada com a alfabetização crítica e cidadania ativa deu lugar a uma pedagogia conservadora que enfatiza a técnica e a passividade.” (GIROUX. p. 33). A solução para tal problema seria encontrar um meio a fim de transformar ou tornar a escolarização significativa de forma a possibilitar aos estudantes uma educação voltada à formação de cidadãos ativos e críticos.
            Sendo assim a escola deve ser vista ou deveria ser vista, como um local tanto instrucional como cultural e o conhecimento por ela repassado valioso pelo poder que possui como modo de análise crítica e de transformação social. Para Giroux p. 39:
O conhecimento torna-se importante na medida em que ajuda os seres humanos a compreenderem não apenas as suposições embutidas em sua forma e conteúdo, mas também os processos através dos quais ele é produzido, apropriado e transformado dentro de ambientes sociais e históricos específicos.

                Para que esse argumento seja concretizado na escola faz-se necessário ter profissionais voltados para este tipo de conhecimento, professores que não apenas reproduzam modelos de ensino que já estão ultrapassados e que não surtem mais nenhum efeito, ou que surtem, mas seu efeito é estudantes passivos diante dos problemas. Em vez de estudantes ativos, que pensam criticamente e compreendem a necessidade de lutar individualmente e coletivamente por uma sociedade mais justa. Conforme o excerto:

As escolas precisam de professores com visão de futuro que sejam tanto teóricos como praticantes, que possam combinar teoria, imaginação e técnicas. Além disso, os sistemas escolares públicos deveriam cortar suas relações com instituições de treinamento de professores que simplesmente formam técnicos, estudantes que funcionam menos como estudiosos e mais como funcionários. Esta medida pode parecer drástica, mas é apenas um pequeno antídoto quando comparada com o analfabetismo e incompetência crítica que estes professores com freqüência reproduzem em nossas escolas. (GIROUX, 1997. p. 40).


            A partir dos anos 60, 70 houve um movimento de novos sociólogos que se uniram para pensar em um meio de fazer uma reforma no ensino na escola especialmente no desenvolvimento curricular ( na disciplina de estudos sociais) por estar faltando aos educadores a compreensão de que a escola é de fato uma instituição sócio- política. Os educadores reformistas embasaram-se na falta de preparação dos professores e materiais curriculares que superestimavam a capacidade cognitiva dos estudantes. Os educadores focalizaram criticamente uma série de suposições a cerca das interações e sala de aula e encontros sociais e com isso levantaram o questionamento: “ o que se aprende nas escola?”.
            Seguindo as reflexões de Giroux na escola o estudante aprende mais do que simplesmente conhecimento e habilidades instrucionais, ou seja, ele aprende muito mais do que está no currículo formal. O estudante aprende normas, princípios de conduta por possuir, a escola, uma função social.
            Muito se têm discutido, pesquisado e analisado sobre a questão da educação, em especial sobre os movimentos  e seus objetivos; que meso questionado sempre trouxeram alguma luz à complexidade do ensino. Neste caso Giroux aborda o movimento Behaviorista e humanista que para ele nem um nem outro fazem relação entre conhecimento de sala de aula e categorias socialmente construídas:
Nem os humanistas nem os behavioristas reportaram-se adequadamente as barreiras que impedem a compreensão e diálogo humano acerca do relacionamento entre o conhecimento socialmente construído e as dimensões normativas da interação em sala de aula. (Giroux, p. 81)
       
             De fato, para que os estudantes compreendam o conhecimento como sendo fundamental e este seja significativo em sua aprendizagem, as escolas têm que possuir isso claro em seus objetivos, de maneira que consiga oportunizar aos estudantes a compreender a natureza política do processo de ensino quanto a usá-lo aplicando a crítica e análise que os ajudarão quando deixarem a sala de aula e ingressarem na sociedade mais ampla. Sendo assim, as escolas incitarão as experiências educacionais de seus alunos, que esclarecerão a riqueza política e complexidade social da interação entre a que é aprendido na escola e s experiência da vida cotidiana.
            Assim, a escola deverá priorizar em primeiro momento a alfabetização de seus atores, mas não basta somente priorizar o saber ler e escrever, a alfabetização deve ser pensada de forma que o estudante aprenda a ler sim, mas criticamente, que consiga decodificar seus mundos pessoais e sociais, ou seja, o conhecimento deverá ser compreendido como força mediadora entre as pessoas.
            O sujeito deverá ser envolvido pela aprendizagem ao realizar o seu estudo, ou seja, tanto o aluno quanto o professor deverão ser vistos como intelectuais transformadores. O ato de estudar, o faz intelectual e com isso sempre formam e transformam alguma coisa ou alguém ao seu redor ou no lugar onde vivem.
            É assim que o lugar do aprendizado mais especificamente a escola, deveria ser reconhecida, como um espaço em que o aluno compreenda as práticas sociais e culturais que acontecem em seu entorno com criticidade, criando a possibilidade de poder se manifestar, expondo o que pensa de forma inteligente e transformadora. Como argumenta Giroux 1997, p. 138: “Os educadores críticos precisam fazer mais do que identificar a linguagem e valores das ideologias corporativas manifestas no currículo escolar; eles precisam desconstruir os processos através dos quais eles são produzidos e postos em circulação”.
            Ainda sobre tal processo Freire é citado por Giroux 1997, p. 146-147, com o seguinte argumento:
A educação inclui e vai além da noção de escolarização. As escolas são apenas um local importante no qual ocorre a educação, no qual homens e mulheres tanto produzem como são produtos de relações sociais e pedagógicas específicas. A educação representa tanto a luta por significado quanto uma luta em torno das relações de poder.

            Contudo, a educação se faz na convivência, na relação dialética dos sujeitos entre si que relacionam dentro de certas condições históricas e limitações estruturais específicas, de outro lado de uma sociedade que se forma a partir de formas e ideologias culturais que contradiz às outras.
            Percebendo-se o quanto complexo se torna a prática da educação, pode-se dizer que cada vez mais se faz emergente que os educadores devem ter um comprometimento apaixonado, que consiga tornar o político mais pedagógico, e assim acreditar que educar é humanizar, alertando desta maneira os aprendizes de que não se deixe levar, não se deixe dominar por discursos não convincentes. Os estudantes devem aprender a usar o seu próprio discurso e ter uma visão mais crítica acerca da sociedade em que fazem parte sendo indivíduos ativos e construtores de sua própria história.
            Com isso, muitas mudanças educacionais ainda serão desafiadoras ou ameaçadoras aos profissionais da educação, uma vez que historicamente certas ideologias já estão constituídas e enraizadas na sociedade e parece que qualquer movimento que o contrarie é motivo de preocupação. Muitas vezes certas reformas educacionais privam o professor da escola pública de oferecer ao estudante uma liderança intelectual e moral. Percebe-se isso no argumento de Giroux, 1997, p. 157:
Muitas das recomendações que surgiram no atual debate ignoram o papel que os professores desempenham na preparação dos aprendizes para serem cidadãos ativos e críticos, ou então sugerem reformas que ignoram a inteligência, julgamento e experiência que os professores poderiam oferecer em tal debate. Quando os professores de fato entram no debate é para serem objeto de reformas educacionais que os reduzem ao status de técnicos de alto nível cumprindo ditames e objetivos decididos por especialistas um tanto afastados da realidade cotidiana da vida em sala de aula.

                Analisando o argumento de Giroux, percebe-se o quanto complexo se torna a atividade docente, e com isso cada vez mais o professor perde perante a sociedade o seu papel de praticantes reflexivos e de certo modo de intelectuais transformadores. Há uma crescente desvalorização e desabilitação do trabalho do professor, pois, de forma acelerada ideologias instrumentais são desenvolvidas que enfatizam uma abordagem tecnocrática para a preparação dos docentes e também para a pedagogia se sala de aula. Materiais prontos que fere muitas vezes a moralidade do professor, instruções que nada tem a ver com a realidade tanto do professor quanto do aluno, desvalorizando-os e fazendo-os crer que são incapazes de pensar. Como afirma Giroux, 1997, p. 161: “A noção de que os estudantes têm histórias diferentes e incorporam experiências, práticas lingüísticas, culturas e talentos diferentes é estrategicamente ignorada dentro da lógica e contabilidade da teoria pedagógica administrativa”.
            Pensar diferente do descrito acima é o que nos leva a refletir sobre atividade docente. Leva-nos a pensar no professor como um intelectual que possui a capacidade humana de integrar o pensamento e a prática e assim serem transformadores de certas ideologias que somente os desvaloriza.
            Para isso, é importante que os professores exerçam sua atividade com responsabilidade ativa sobre o que estão ensinando, pois são eles responsáveis pela formação dos propósitos e condições de escolarização. Os educadores devem ser reconhecidos como promotores de mudanças. Para o teórico em estudo o professor deve trabalhar para criar condições que dêem aos estudantes a oportunidade de tornarem-se cidadãos que tenham o conhecimento e coragem de lutar a fim de que o desespero não seja convincente e a esperança seja viável. Apesar de parecer uma tarefa difícil para os educadores, esta é uma luta que vale a pena travar. Proceder de outra maneira é negar aos estudantes a chance de assumirem o papel de intelectuais transformadores. ( GIROUX, 1997, p. 163).
            Para finalizar meu esboço acerca deste importante debate que ainda será assunto para longos anos no que se referir as mudanças educacionais, quero destacar aqui o quanto difícil é a tarefa de proceder como intelectual transformador. Pois, somente quem exerce sua atividade docente em uma escola pública, cheia de problemas estruturais, encarando uma sala de aula lotada com alunos que em sua maioria não recebem na família valores necessários para poderem ter uma convivência amistosa com colegas e professores, é que sabem realmente o que é ser professor. Ser professor é sentir, é viver com seu aluno aquilo que jamais imaginou viver. É doar seu corpo, sua mente ... para poder conquistá-lo e talvez daí, conseguir ser admirado por ele.

LUCIMARA DE CASTRO BUENO

 GIROUX, Henry A. OS PROFESSORES COMO INTELECTUAIS: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. GIROUX, Henry A.; trad. Daniel Bueno.- Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

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