segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Ninguém o enxergou, apenas o sentiu!

 

Ninguém o enxergou, apenas o sentiu!

 

Naquele ano 2020, as coisas pareciam não quererem se ajeitar, o ano recém tinha nascido e parecia que já havia se passado vários meses. As pessoas andavam cansadas e tristes. Os dias eram cinzas e quentes.

Normalmente, a vida da maioria dos habitantes da pequena cidade de Corvih situada ao norte do Estado do Rio Grande do Sul era sempre muito pacata. Todos os dia as pessoas realizavam as mesmas coisas: senhoras donas de casa abriam as janelas de suas casas, penduravam roupas no varal, colocavam as roupas de cama para pegar sol sobre a soleira da janela, esguichavam água nas calçadas de mangueira, tiravam a sesta da tarde depois do almoço, faziam visitas às vizinhas e tomavam um bom mate, reuniam-se na praça central para comer pipoca, respirar uma ar fresco e ver a piazada correr por entre os pés de jabuticabeiras. Muitas pessoas ao se encontrarem na rua paravam para se cumprimentar de tão familiares e próximas que eram.

A vida era tranquila. Os dias passavam devagar. Vários casais caminhavam à tardinha com seu animal de estimação. Tudo era muito calmo. Mas como já disse, o ano recém tinha nascido e já estava cansativo. De repente tudo ficou diferente. Não mais se via pessoa nas ruas, elas pareciam andar com medo umas das outras, ninguém mais se cumprimentava como antes, nem abraço, nem beijinho, nem um aperto de mão. Também não se recebia ninguém em casa. Visita nem pensar!

A época do Corona vírus 19, demorou a passar e a cidade ficou ainda mais parada, principalmente nos primeiros tempos da pandemia. Ninguém tinha a mínima ideia do que poderia acontecer. Até que tinha quem arriscasse a dar palpites, mas a maioria eram infundados.

Foram longos e temerosos os dias, tinha-se a impressão de que tudo que era tocado com as mãos o Covid 19 tinha atacado, afinal, ninguém o enxergava apenas podiam o sentir.

Como o ser humano acostuma logo com as mudanças, com o passar de um ano as pessoas já estavam descrentes do tal invisível e acabaram descumprindo as orientações dos profissionais da saúde e começaram a circular por todos os lugares e mesmo que utilizassem máscaras, pois o equipamento era obrigatório naqueles tempos, acabaram se contaminando, e, sem querer contaminaram amigos e familiares e assim, mais da metade da população da pequena cidade de Corvih acabou morrendo. Restando apenas algumas raríssimas pessoas, entre elas que muito se estimou na cidade o padre, o coveiro, o dono da padaria e uma professora que gostava muito de escrever histórias.

 

Conto escrito pela Professora Lucimara De Castro Bueno, em 23 de abril de 2020. Ano em que o mundo todo foi acometido pelo vírus Covid 19.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Mudanças desafiadoras na educação, porém necessárias...

 

Nos últimos tempos a prática no contexto educativo exigiu-nos buscar um redirecionamento de nossa profissão. 2020 exigiu-nos reinventar-nos e mudar nossa direção. Muitas vezes essa mudança já havia ocorrido, porém devido a carência das tecnologias, a falta de internet para todos foi empurrando essa necessidade para mais além. Só que de uma vez chegou e não tivemos mais como adiar. De uma vez a pandemia exigiu que os professores buscassem se aperfeiçoar mais as mídias, que os gestores públicos realizassem investimentos em tecnologias nas escolas dando condições de trabalho aos professores, ainda que seja bem precária.

Com a pandemia o ensino remoto e o ensino híbrido foram a bola da vez. Trabalhar através das tecnologias, a distância, foi e está sendo muito desafiador.

O ensino remoto tornou-se para muitos alunos e profissionais da educação algo muito difícil de se realizar, pois a realidade de acesso a internet ainda é deficiente em muitos lares e em muitas escolas.

O mais importante de tudo é que apesar da falta de acesso as tecnologias, os professores não deixaram de se organizar, de planejar as aulas para que aos seus alunos fosse garantido o acesso à educação nestes tempos difíceis. Os professores se reinventaram e nos lugares aonde não chegava internet para as crianças e adolescentes estudarem, chegava os kits de material impresso organizado com muito carinho e atenção pelos professores.

Sendo assim, compreendemos que o ensino híbrido chegou para fundamentar as tecnologias no meio educacional, pena que tenha sido em um momento de pandemia, poderia já ter ocorrido muito antes se na educação fosse realidade um investimento pensando na qualidade.

Um aspecto muito importante que precisamos destacar nesta volta a mais um ano letivo que está sendo mais desafiador que o ano que passou é que devemos refletir sobre o processo de ensino e aprendizagem a fim de perceber as habilidades e competências que foram trabalhadas em 2020 para que possamos aprimorá-las ainda mais com nossos alunos. Em meio a isso, necessitamos nos questionar sobre:

·       Como nossos alunos desenvolveram habilidades e competências importantes para o seu desenvolvimento nas aprendizagens?

·       Como fazer e o que fazer para acolher nossos estudantes para o retorno das aulas presenciais?

 

Outro aspecto relevante que precisamos compreender é que a Resolução CNE/CP n2, de 10 de dezembro de 2020, trata da necessidade de unir dois anos em um único ano, ou seja, o aluno precisa desenvolver habilidades que ficaram sem serem trabalhadas no ano 2020. Por isso, o Currículo Contínuo irá dar continuidade, irá rever, retomar conteúdos que não foram trabalhados de maneira com que os estudantes tenham desenvolvidos de fato, tais habilidades propostas pela BNCC.

Torna-se evidente então, que as habilidades não são estanques, podem e devem ser retomadas em forma de revisão, a fim de aprimorar as aprendizagens. Sendo assim, cabe a todos os professores de todas as disciplinas aprimorar habilidades necessárias e que não cabe somente a uma ou outra disciplina que é o caso de tornar-se ou tornar um bom leitor. Neste caso, a leitura no âmbito escolar deve ser alimento para todas as disciplinas escolares a fim de cumprir com as habilidades de exigência da BNCC.

Para isso, necessita-se de professores leitores. Professores que de fato tenham a leitura como guia para seu aprendizado, porque se for diferente, jamais algum aluno irá realizar com entusiasmo. A literatura não deve ser usada como pretexto para explorar conteúdo ou somente com esse objetivo.

A escola precisa e deve dar atenção a formação de leitores. Ler deveria se tornar um prazer aos estudantes, uma satisfação. Para isso, precisaríamos ter bibliotecas estimulantes, livros que despertasse o interesse, que instigue as crianças à leitura.

A formação de leitores é um processo contínuo, não se faz bons leitores de um dia para o outro. Eis que instigar os estudantes à leitura é uma tarefa complexa nos tempos atuais, ainda mais quando nos deparamos com biblioteca defasadas como as nossas.

A leitura é essencial na vida de qualquer pessoa, é a partir dela que aprendemos a nos comunicar, ainda mais nestes tempos que possuímos excesso de informação, que temos informação sobre tudo, mas muitas vezes não sabemos falar sobre determinado assunto com profundidade.

Através da leitura aprendemos a nos comunicar e nos comunicando aprendemos a escutar o que os outros tem a nos dizer. Muitas vezes apenas ouvimos o que nos falam, mas não escutamos. Há uma diferença entre o ouvir e o escutar que somente aprenderemos a partir do momento que aprimorarmos as habilidades leitoras.

Para finalizar, refletimos que para o processo de ensino e aprendizagem nestes tempos de pandemia e pós pandemia faz-se necessário um levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos, a fim de saber o que devemos priorizar, o que devemos dar continuidade, ou retomar os conhecimentos, os conteúdos que são necessários para o sucesso escolar dos nossos estudantes.


Escrito por Lucimara De Castro Bueno


Lucimara De Castro Bueno
Mestre em Políticas Públicas e Gestão Educacional- UFSM 
Linha de pesquisa: Gestão Pedagógica. Contextos Educativos.  UFSM
Professora da Educação Básica Pública
Graduada em Letras: Língua Portuguesa/ Língua Espanhola e Respectivas Literaturas- URI
Pós Graduada em Língua Hispânica e Cultura Espanhola- URI
Especialização em Tecnologias da Educação- IFPEL
Especialização em Gestão Educacional- UFSM
Tutora a Distância do Curso de Pedagogia- EAD- UFSM
e-mail: lucimara41cbueno@gmail.com

quarta-feira, 29 de abril de 2020


MEDO DE FECHAR OS OLHOS

Por Professora Ma Lucimara De Castro Bueno

Quando eu fechar os meus olhos
O que enxergarei?
Será um rei?
Será uma luz?
Ou, será nada.

Quando eu fechar os olhos
O que enxergarei?
Pode ser que seja eu mesmo,
Ou, aquele a quem procuro toda a minha vida?

Quando eu fechar os olhos
O que enxergarei?
Pode ser que não seja nada, e assim, descansarei.
Pode ser que seja você, e me torturarei.

Quando eu fechar os olhos
O que enxergarei?
Na verdade, não sei.
Só o que sei é que sinto medo de fechar os olhos.
Sinto medo de não ver nada e me decepcionar.
Com o que não vejo.

Tenho medo de fechar os olhos
E nada mais ver.


quarta-feira, 17 de outubro de 2018


Sobre a história e a teoria da forma escolar
          Por: Lucimara De Castro Bueno
O artigo se propõe a fazer uma análise sócio histórica sobre a forma escolar considerando o ensino da França do século XVIII, para a análise os autores se pautam nas várias transformações históricas ocorridas no decorrer dos anos. Discorrem os processos sociais e educativos em meio a uma necessária mudança na forma escolar que traz à escola polêmicas e posições exacerbadas já faz um bom tempo.
          Na idade média ou antiga sociedade “aprender” se fazia “por ver fazer e ouvir dizer” (Vincent, 2001). Isso acontecia entre camponeses, artesãos ou nobres. Ou seja, o processo educativo das crianças nesta época dava-se através da participação das atividades em família.
          Aprender neste período era relacionado ao fazer. Aos indivíduos era disponibilizados os trabalhos ou afazeres aos quais as famílias se dedicavam e neste meio acontecia o aprendizado.
          Houve então a necessidade de aprender um educação mais formal, criou-se a escola. De certa forma este tipo de escolarização foi resistido pelos grupos sociais, especialmente pela elite que exigia uma escola concedida apenas para atender a suas demandas.
          A escola passa a ser organizada a partir das relações sociais em que o Mestre de escola (Vincent, 2001) realizava o seu trabalho em um espaço apropriado e em um tempo específico; o tempo escolar, simultaneamente como período de vida, como tempo no ano e como emprego do tempo cotidiano.
          A relação entre o mestre e o aluno estabelecida no processo do ensinar e aprender se torna conhecida como relação pedagógica. Para a época era um tipo de relação diferente e por isso, se autonomizou em relação às outras relações sociais.
          Sendo então cada vez mais as práticas escolares influenciadas pelas transformações ocorridas na sociedade oferece-se a educação ao povo, no final do século XVII, que no entanto, para exercerem os ofícios que lhes seriam atribuídos na sociedade de produção, podiam realizá-los sem os “saberes” transmitidos pela escola.
          Sob influência dos poderes religiosos a escola procura destinar a educação ao “povo” de forma a obter a submissão, a obediência. Nesta época houve a introdução do catecismo com a Reforma e a Contra Reforma que utilizava-se de recursos escolares como manuais, lições, questões e respostas que deveriam ser decoradas para serem aprendidas. Não era comum o diálogo entre o mestre e o aluno. Havia um distanciamento, regras constitutivas da ordem escolar que eram impostas a todos, até mesmo ao próprio mestre.
          Nesta concepção percebe-se a escola com a função de “transmitir saberes e saber fazer” - sendo que os “Métodos Pedagógicos” (Vincent, 2001) garantiam a eficácia desta transmissão, que dava-se através das disciplinas escolares num processo de cópia, leitura e decoreba.
          A escola preparava a criança para tornar-se homens para servir o Estado, afeiçoado ao seu país, homens submissos, sujeitos a qualquer forma de poder. A escola estava fundamentalmente ligada a formas de exercícios de poder, ou seja, exerce um papel político porque possui o poder das palavras na relações sociais e da escritura diante de um povo desprestigiado economicamente e culturalmente. 
          Pode-se perceber que a forma escolar possui características definidoras de sua forma que se constitui a partir da escola como espaço específico separados das outras práticas sociais, vincula-se então, a saberes objetivados. (Vincent, 2001). Neste caso a escola se torna o ponto de passagem obrigatório para que os indivíduos que se destinam a tipos de atividades e aposição social muito diferente de sua relação inicial.
          Outra características que define a forma escolar é a escola e a pedagogização das relações sociais de aprendizagem que estão ligadas aos saberes escriturais formalizados da escola. A forma como o conhecimento é abordado faz com que se delimite a maneira de aprender e de ensinar. Neste tipo de escola tudo é escrito, previsto, controlado, codificado, fazendo com que o ensino se torne pouco interessante e fastidioso à criança.
          Ainda dentro da forma escolar há que se falar sobre a relação social estabelecida pela escola com a sociedade de maneira geral. A escola não se abre para os saberes encontrados na fora da escola, não valoriza o conhecimento que o aluno traz de sua vivência e isso torna os saberes e práticas escolares serem superados pelas práticas sociais o que torna a aprendizagem do ler e do escrever sem muito prestígio.
          Podemos notar diante disso na forma escolar que a escola é uma instituição que em seu processo de trabalho sempre cedeu lugar as formas de exercício de poder. Isso ocorre deste a relação aluno e professor até chegar ao diretor, secretário de educação etc. Neste caso, haverá sempre um poder superior ao outro, no qual todos devem obedecer cumprindo as regras estabelecidas por eles. A interação neste caso, era limitada. Se formava sujeitos disciplinados e ao mesmo tempo adestrados que eram conhecidos como inteligentes.
          Para concluir as características da forma escolar podemos descrever a escola como aquela que objetiva a ensinar a falar e escrever conforme as regras gramaticais, ortográficas, estilísticas etc. (Vincent, 2001). Era portanto, o lugar de aprendizagem da língua, ou seja, para se obter acesso ao aprendizado escolar era preciso dominar a língua escrita, caso contrário, o sujeito era excluído das relações sociais escolares.
          Percebemos a partir disso que há uma distanciamento e um poder muito considerável da forma escolar sobre as relações sociais de maneira geral na escola, o que constitui desde há muito tempo o fracasso escolar. Pois, no processo de ensino a escola é a instituição referência, todos os indivíduos que procuram uma formação, seja geral ou profissional precisa da escola. Acontece que a escola em sua forma continua a mesma de praticamente trinta anos possui um currículo isolado que acaba dividindo as classes e não compartilha dos saberes de seus alunos daí o desestímulo e o baixo gosto para frequentar a escola todo dia.
          Para superar esta forma escolar que evoca na crise da escola as reformas institucionais e pedagógicas sempre estão sendo pensadas para dar mais credibilidades a instituição da escola. Porém há predominância da forma escolar que ainda hoje constitui de um universo separado para a infância; o uso de regras na aprendizagem; a organização racional do tempo; a multiplicação e a repetição dos exercícios que leva o aluno apenas a aprender conforme as regras.
          Sendo assim, percebemos que nas práticas socializadoras há numerosos elementos e traços da forma escolar, neste caso, a sociedade está escolarizada segundo o modelo da forma escolar até mesmo nos domínios alheios ao currículo consagrado das escolas de cultura geral ou de formação profissional. Ou seja, a sociedade foi e está sendo escolarizada seguindo o modelo da forma escolar, se não temos homens pensantes na sociedade, se temos muita corrupção, muita falta de tolerância entres as pessoas grande parte pode ter sido pela escola negligenciar o debate sobre tais temas.
          Quanto mais a população se escolariza maior são as exigências e a necessidade de transformações em sua forma escolar porque a predominância da escola acarreta exigências maiores e mais diversificada em relação `a escolarização.

Referência:

VINCENT, Guy; LAHIRE, Bernard; THIN, Daniel. Sobre a história e a teoria da forma escolar. Educação em Revista. Belo Horizonte, n. 33, p. 7-47- Junho. 2001.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018


TRABALHO E EDUCAÇÃO
Por: Lucimara De Castro Bueno
               Para compreender os fundamentos ontológicos e históricos do trabalho e educação, Saviani (2007) nos deixa esclarecido que estes fundamentos na verdade se constroem, em conjunto, uma vez que é através do trabalho que o homem se constitui como ser. Ou seja, o trabalho é para o homem um fundamento ontológico que o transforma, que o faz ter sentido a sua existência. É através do trabalho que o homem pode pensar, agir e produzir, sendo portanto, um processo educativo. Sendo assim, a origem da educação coincide, com a origem do homem (Saviani, 2007)
          Ao mesmo tempo em que o trabalho e a educação são fundamentos do homem enquanto ser, também é histórico porque se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo do tempo.
          Neste sentido trabalho e educação eram para as comunidades primitivas fundamentos que constituía a identidade do homem, pois dava-se de tal forma que os homens aprendiam a produzir sua existência no próprio ato de produzi-la. Tudo acontecia coletivamente, aprendiam trabalhar trabalhando, lidando com a natureza, relacionando-se com os outros seres humanos, eles mesmos educavam-se e transmitiam conhecimentos as futuras gerações. (Saviani, 2007).
          No entanto, houve uma separação da essência dos fundamentos do trabalho e da educação a partir da divisão dos homens em classe social, resultado do desenvolvimento da produção que começava a se expandir. Sobre isso é importante lembrar que este desenvolvimento estava mais voltado a produção para subsistência. Era uma relação entre quem produzia que se dava através da troca de produtos.
          As classe sociais que se configuraram nesta época se dividiram entre a classe dos proprietários e dos não proprietários. Desde então, passou-se a existir uma relação de poder entre os homens que desconstrói o fundamento ontológico inicial em que o trabalho definia a essência humana, pois o proprietário, ou o patrão, aquele com o poder econômico maior passou a dominar os espaços e a viver através do trabalho realizado pelo não- proprietário, ou peão. Isso significa dizer que os homens menos favorecidos trabalhavam para manter aqueles que mais posse tinha.
          É importante lembrar que a relação de poder econômico que diferenciava patrões e peões igualmente imperava nas mais diversas esferas de vida da classe trabalhadora que sentiam-se inferiores de ideias, de pensamentos, de inteligência e sujeitavam-se ao trabalho escravista como forma de sobrevivência.
          Logicamente que essa divisão dos homens em classes provocaria uma divisão na educação. Houve então, a constituição de modalidades separadas de educação. Uma então, destinada a classe dos proprietários identificada como a educação dos homens livres, e a outra para a classe não- proprietária, identificada como a educação dos escravos e serviçais. (Saviani, 2007, p. 155).
          No auge desta divisão de classes nasceu a escola. Desta forma a educação para a elite era baseada no desenvolvimento intelectual, na arte das palavras e no exercício físico de caráter lúdico ou militar. Enquanto aos pobres era oferecida a educação assimilada ao próprio processo de trabalho.
          Sendo assim, a escola pensada para atender a classe dominante, se perpetuou na história como uma instituição de domínio em se tratando de processos educativos, que valoriza a forma e organização escolar a partir da exigência da classe dominante.
          O desenvolvimento da sociedade em classe, especialmente nas suas formas escravistas e feudal, consumou a separação entre educação e trabalho, (Saviani, 2007, p, 157) consequentemente também manifestou-se esta divisão entre a escola e a produção.
          A divisão entre escola e produção vai refletir na separação que foi se processando ao longo da história entre trabalho manual e trabalho intelectual. Ou seja, a escola foi posta como trabalho intelectual a qual tem a função de preparar homens da elite para serem lideranças com poder de domínio da palavra, do conhecimento de regras e fenômenos naturais.
          Enquanto que o trabalho manual não era necessário preparo escolar era dirigido a classe da produção. Bastava o trabalhador realizar o seu ofício e seguir a orientação do mestre de ofício que já adquiria domínio sobre o trabalho.
          Mais tarde com a demanda da produção houve migração de pessoas do campo para as cidades à procura de trabalho oferecida pelas indústrias que cresciam aceleradamente. Com isso, houve também a exigência de que não mais bastava ao homem a formação inicial, passou-se a exigir do trabalhador o aprimoramento técnico para executar máquinas.
          Com isso o trabalho humano passa a ser mecanizado e automático, sem a necessidade de pensar muito para produzir. Bastava saber conduzir a máquina que o produto ficava pronto. Assim, com a demanda cada vez maior da industrialização a escola primária foi universalizada, promovendo a socialização dos indivíduos nas formas de convivência próprios da sociedade moderna e familiarizando os homens aos códigos formais, capacitando-os a integrar o processo de produção.  
          A partir desta introdução das máquinas na produção não era suficiente ao homem apenas manuseá-la com facilidade, então foi necessário saber como arrumá-los, ajustar, dar manutenção, daí a exigência de qualificações específicas que veio através dos cursos profissionalizantes oferecidos pelas escolas sobre determinações puramente industriais. Era então, necessário formar para se ter mão de obra.
          Houve então, uma escolarização em massa em que ao trabalhador era oferecida a instrução baseada na formação limitada à execução de tarefas, dispensando o entendimento de fundamentos teóricos; enquanto que a preparação da elite se baseava no domínio teórico amplo o qual possibilitava-o atuar como chefes em diferentes setores da sociedade.
          Estabeleceu-se nitidamente neste período da Revolução Industrial uma forte divisão entre as classe sociais, a partir da proposta dualista de escolas profissionais para os trabalhadores e as “escolas de Ciências e Humanidades” (Saviani, 2007) para os futuros dirigentes. Esta formação diferenciada oferecida nas escolas incrementava ainda mais uma relação de diferenças entre as classes em que de um lado tinha-se o privilégio e do outro, aquele que nasceu na condição de operário ali deveria continuar.

Referência
SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação v. 12 n. 34 jan./abr. 2007


sábado, 14 de outubro de 2017

Escrevo este singelo texto em homenagem aos grandes heróis e heroinas deste país. Sem os professores a sociedade se transforma num caos. Porém, o grande intuito da parte de alguns  gestores políticos deste país ainda é transformar a vida destes trabalhadores em um caos para igualmente a sociedade como um todo também se transformar. Professor! a profissão que transforma o mundo. Parabéns!! a todos os Professores e Professoras deste país. Especialmente aos meus colegas e amigos.

É A VIDA DE PROFESSOR
            O professor acorda cedo. Todos os dias soa o despertador às 6 horas da manhã. Sabe que mais um dia puxado terá. O professor se espreguiça, meio sem jeito para não acordar a companheira ao lado. Sai da cama. Tira o pijama. Se banha, se arruma e se perfuma.
            O entusiasmo é grande. Ele sabe que um punhado de gente pequena e gente grande estão a sua espera. O professor prepara a cuia para saborear um mate. Olha pro relógio da parede da cozinha, está marcando 06h20min. Pela janela confere se terá sol ou chuva, frio ou calor, ultimamente a temperatura no Sul está muito variada.
            O professor liga a TV para ver se alguma noticia esperançosa aparece. Enquanto toma o mate vai ouvindo os desastres. Se sente triste, suspira fundo, “parece mesmo, sem solução às coisas neste mundo!”.
            Vai até a cozinha prepara algo pra comer. Sabe que o desjejum é importante para a saúde do coração. Segue a risca as recomendações do médico. É a vida de professor...
            Já na rua...
            Vai a pé, de ônibus ou de trem. Não importa como chegar. Ele sabe que às 07h40min tem que estar lá.
            Na escola...
            Vai cumprimentando com um “Bom dia!” bem alegre as pessoas que encontra. Se dirige ao ponto digital marcando sua estimada presença, como se isso fizesse a diferença!.
            Chega à sala dos professores alguns escutam o seu Bom dia! Outros não. A maioria mulheres, que conversam três, quatro assuntos de uma só vez. As professoras contam sobre o final de semana, o temporal do dia anterior, das roupas que deixou no varal, das aulas que preparou e das provas que corrigiu... E assim, segue a vida do professor.
            Minutos antes do sinal a coordenadora pedagógica entra na sala para dar alguns recados. A ideia é pensar em atividades recreativas para comemorar o dia das crianças.
            Pois bem...
            O sinal soou exatamente às 07h40min.
            O professor leciona a Língua Portuguesa nas séries finais do ensino Fundamental. Então pega seu material em cima da mesa e se dirige para mais uma manhã de trabalho.
            Entre um passo e outro vai pensando na atividade. Vai perguntar aos alunos o que desejam para a sua idade!. Boa ideia! Certamente irão ficar contentes.
            No pátio da escola alguns alunos correndo, outros sentados. O professor passa a vai cumprimentando. Alguns alunos respondem outros com preguiça nem mexem a boca. Num canto do corredor dois meninos agarrados um chutando o outro e todo arranhado. Ele separa os dois. Conversa dizendo palavras bonitas e leva um chute na panturrilha.
            O menino sai correndo. O professor fica ali sofrendo com a dor e a calça manchada de barro. É a vida de professor.
            Na sala de aula todos a sua espera. Uns alunos em pé escorados na janela. Outros no fundo da sala com o boné na cara. Mais a frente outro grupo com caixinha de som escutando um Rapp “inocente”. O professor entra põe suas coisas na mesa dá “Bom dia”! E adivinha?
...
            É a vida de professor.
            O professor numa segunda tentativa solicita que o escutem. A sala é cheia. Vinte e sete alunos com um turbilhão de coisas na cabeça. E um só professor. Ah! Só pra lembrar a aula possui 45 minutos.
            Um aluno do fundão grita pra chamar a atenção: “oh! Fesor! Não fiz a lição e esqueci o caderno na casa da vó!. Na mesma sinfonia mais cinco alunos seguem o modelo.
            O professor muito querido lê para quem lhe dá ouvido. Inicia a aula de Português proferindo o poema “Aprendi” de Willian Shakespeare e assim o professor conquista mais alguns alunos que por dez minutos o escutam sem reclamar.
            Em seguida, o professor comenta sobre a comemoração do dia das crianças e pediu aos alunos o que gostariam de realizar. A maioria já foi logo dizendo: “Nada”! Outros disseram querer ouvir Rapp, enquanto que outros queriam jogar bola. Os alunos que não queriam nada foram logo gritando: -”fica quieta”! -“sua vaca”! – “vai a merda seu tongo”!.
            O professor acostumado com tanta criatividade não se surpreende. Anota tudo com muita atenção para mais tarde encontrar uma solução. É a vida de professor.
            A tarefa da aula é a discussão e escrita de um pequeno parágrafo sobre o texto lido. Muitos xingamentos e reclamações o professor ouve. É a vida de professor.
            Assim o ensino fica pela metade. A maioria dos alunos não se interessa e só passa pela cabeça o que não presta. Tá difícil. Tá complicado. E o professor sai da escola de cabeça cheia e decepcionado. É a vida de professor.
            Chega em casa exausto, sabe que ainda tem mais dois turnos para enfrentar. Trabalha tanto assim, não porque quer, mas para a família sustentar.
            É a vida de professor.
            A você minha homenagem neste 15 de Outubro. Sei que tem muita gente que te julga, mas saiba “estamos juntos”. Na minha frente não permito que ninguém julgue o teu trabalho. Se não for pra elogiar! Passe longe! Já vou avisar.
            Professor é um tesouro. Ainda a sociedade vai me dar razão. Quero ver onde papai e mamãe vão colocar seus filhinhos para estudar quando o professor desistir de ensinar.

 Lucimara De Castro Bueno
           





quarta-feira, 11 de outubro de 2017

 Escrevi este poema pensando nas crianças deste país que vivem sob o risco, que vivem na vulnerabilidade, sem um lar, sem ir à escola... enquanto, os governantes fazem a "farra" com o dinheiro que é nosso... que é das crianças... 


SER CRIANÇA...
Ser criança no mundo de hoje
É ter incertezas e certezas
É viver entre o sim e o não,
É rir ou chorar sem razão
É viver com o coração na mão
É ter sonhos sem poder sonhar.
SER CRIANÇA
É estar de olhos atentos para todos os lados,
Pois vive num mundo complicado
E sabe que está sujeito a todo o sacrifício.

SER CRIANÇA
É estar em constante agonia,
Pois não se sabe se ele virá de noite ou de dia

O menino espia a rua...
Olha por entre os papelões que o protegem,

Gente passando...
O homem com uma metralhadora na mão
Mais uma criança estendida no chão,
E mais uma mãe
Partido o coração.

SER CRIANÇA

Como é difícil!
Sem família, sem escola,
Apenas mais um vidro de cola...
Triste realidade!
Está perdendo a flor da idade,
Sem saber,
Sem ler,
Sem escrever,

Sem professor,
Sem amor...






SER CRIANÇA...
Nos dias de hoje...
É estar sem ser,
É ser sem saber,
É saber sem compreender
É compreender sem interpretar
É interpretar do jeito que dá
Podendo assim evitar
Mais uma vez ter que chorar...

SER CRIANÇA...
É não saber se vai ou se fica,
É viver voando sobre uma pipa
É viver correndo por entre os carros...
De pés descalços,
Braços nus...
Abaixo do sol a pino
Fervilhando sua pele judiada,
Atrás de um vintém para tentar pagar

O homem.

SER CRIANÇA
Que triste realidade!
Em um país da prosperidade
Dos quem tem e não se importam com ninguém,
Dos que roubam de inocentes,
Sem vergonha...
Sem ética...
Sem amor

Sem  criança.

LUCIMARA DE CASTRO BUENO