TRABALHO
E EDUCAÇÃO
Por: Lucimara De
Castro Bueno
Para
compreender os fundamentos ontológicos e históricos do trabalho e educação,
Saviani (2007) nos deixa esclarecido que estes fundamentos na verdade se
constroem, em conjunto, uma vez que é através do trabalho que o homem se
constitui como ser. Ou seja, o trabalho é para o homem um fundamento ontológico
que o transforma, que o faz ter sentido a sua existência. É através do trabalho
que o homem pode pensar, agir e produzir, sendo portanto, um processo educativo.
Sendo assim, a origem da educação coincide, com a origem do homem (Saviani,
2007)
Ao
mesmo tempo em que o trabalho e a educação são fundamentos do homem enquanto
ser, também é histórico porque se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao
longo do tempo.
Neste
sentido trabalho e educação eram para as comunidades primitivas fundamentos que
constituía a identidade do homem, pois dava-se de tal forma que os homens
aprendiam a produzir sua existência no próprio ato de produzi-la. Tudo
acontecia coletivamente, aprendiam trabalhar trabalhando, lidando com a
natureza, relacionando-se com os outros seres humanos, eles mesmos educavam-se
e transmitiam conhecimentos as futuras gerações. (Saviani, 2007).
No
entanto, houve uma separação da essência dos fundamentos do trabalho e da
educação a partir da divisão dos homens em classe social, resultado do
desenvolvimento da produção que começava a se expandir. Sobre isso é importante
lembrar que este desenvolvimento estava mais voltado a produção para
subsistência. Era uma relação entre quem produzia que se dava através da troca
de produtos.
As
classe sociais que se configuraram nesta época se dividiram entre a classe dos
proprietários e dos não proprietários. Desde então, passou-se a existir uma
relação de poder entre os homens que desconstrói o fundamento ontológico
inicial em que o trabalho definia a essência humana, pois o proprietário, ou o
patrão, aquele com o poder econômico maior passou a dominar os espaços e a
viver através do trabalho realizado pelo não- proprietário, ou peão. Isso
significa dizer que os homens menos favorecidos trabalhavam para manter aqueles
que mais posse tinha.
É
importante lembrar que a relação de poder econômico que diferenciava patrões e
peões igualmente imperava nas mais diversas esferas de vida da classe
trabalhadora que sentiam-se inferiores de ideias, de pensamentos, de
inteligência e sujeitavam-se ao trabalho escravista como forma de
sobrevivência.
Logicamente
que essa divisão dos homens em classes provocaria uma divisão na educação.
Houve então, a constituição de modalidades separadas de educação. Uma então,
destinada a classe dos proprietários identificada como a educação dos homens
livres, e a outra para a classe não- proprietária, identificada como a educação
dos escravos e serviçais. (Saviani, 2007, p. 155).
No
auge desta divisão de classes nasceu a escola. Desta forma a educação para a
elite era baseada no desenvolvimento intelectual, na arte das palavras e no
exercício físico de caráter lúdico ou militar. Enquanto aos pobres era
oferecida a educação assimilada ao próprio processo de trabalho.
Sendo
assim, a escola pensada para atender a classe dominante, se perpetuou na
história como uma instituição de domínio em se tratando de processos educativos,
que valoriza a forma e organização escolar a partir da exigência da classe
dominante.
O
desenvolvimento da sociedade em classe, especialmente nas suas formas
escravistas e feudal, consumou a separação entre educação e trabalho, (Saviani,
2007, p, 157) consequentemente também manifestou-se esta divisão entre a escola
e a produção.
A
divisão entre escola e produção vai refletir na separação que foi se
processando ao longo da história entre trabalho manual e trabalho intelectual.
Ou seja, a escola foi posta como trabalho intelectual a qual tem a função de
preparar homens da elite para serem lideranças com poder de domínio da palavra,
do conhecimento de regras e fenômenos naturais.
Enquanto
que o trabalho manual não era necessário preparo escolar era dirigido a classe
da produção. Bastava o trabalhador realizar o seu ofício e seguir a orientação
do mestre de ofício que já adquiria domínio sobre o trabalho.
Mais
tarde com a demanda da produção houve migração de pessoas do campo para as
cidades à procura de trabalho oferecida pelas indústrias que cresciam
aceleradamente. Com isso, houve também a exigência de que não mais bastava ao
homem a formação inicial, passou-se a exigir do trabalhador o aprimoramento
técnico para executar máquinas.
Com
isso o trabalho humano passa a ser mecanizado e automático, sem a necessidade
de pensar muito para produzir. Bastava saber conduzir a máquina que o produto
ficava pronto. Assim, com a demanda cada vez maior da industrialização a escola
primária foi universalizada, promovendo a socialização dos indivíduos nas
formas de convivência próprios da sociedade moderna e familiarizando os homens
aos códigos formais, capacitando-os a integrar o processo de produção.
A
partir desta introdução das máquinas na produção não era suficiente ao homem
apenas manuseá-la com facilidade, então foi necessário saber como arrumá-los,
ajustar, dar manutenção, daí a exigência de qualificações específicas que veio
através dos cursos profissionalizantes oferecidos pelas escolas sobre determinações
puramente industriais. Era então, necessário formar para se ter mão de obra.
Houve
então, uma escolarização em massa em que ao trabalhador era oferecida a instrução
baseada na formação limitada à execução de tarefas, dispensando o entendimento
de fundamentos teóricos; enquanto que a preparação da elite se baseava no
domínio teórico amplo o qual possibilitava-o atuar como chefes em diferentes
setores da sociedade.
Estabeleceu-se
nitidamente neste período da Revolução Industrial uma forte divisão entre as
classe sociais, a partir da proposta dualista de escolas profissionais para os
trabalhadores e as “escolas de Ciências e Humanidades” (Saviani, 2007) para os
futuros dirigentes. Esta formação diferenciada oferecida nas escolas
incrementava ainda mais uma relação de diferenças entre as classes em que de um
lado tinha-se o privilégio e do outro, aquele que nasceu na condição de
operário ali deveria continuar.
Referência
SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos.
Revista Brasileira de Educação v. 12 n. 34 jan./abr. 2007
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