segunda-feira, 15 de outubro de 2018


TRABALHO E EDUCAÇÃO
Por: Lucimara De Castro Bueno
               Para compreender os fundamentos ontológicos e históricos do trabalho e educação, Saviani (2007) nos deixa esclarecido que estes fundamentos na verdade se constroem, em conjunto, uma vez que é através do trabalho que o homem se constitui como ser. Ou seja, o trabalho é para o homem um fundamento ontológico que o transforma, que o faz ter sentido a sua existência. É através do trabalho que o homem pode pensar, agir e produzir, sendo portanto, um processo educativo. Sendo assim, a origem da educação coincide, com a origem do homem (Saviani, 2007)
          Ao mesmo tempo em que o trabalho e a educação são fundamentos do homem enquanto ser, também é histórico porque se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo do tempo.
          Neste sentido trabalho e educação eram para as comunidades primitivas fundamentos que constituía a identidade do homem, pois dava-se de tal forma que os homens aprendiam a produzir sua existência no próprio ato de produzi-la. Tudo acontecia coletivamente, aprendiam trabalhar trabalhando, lidando com a natureza, relacionando-se com os outros seres humanos, eles mesmos educavam-se e transmitiam conhecimentos as futuras gerações. (Saviani, 2007).
          No entanto, houve uma separação da essência dos fundamentos do trabalho e da educação a partir da divisão dos homens em classe social, resultado do desenvolvimento da produção que começava a se expandir. Sobre isso é importante lembrar que este desenvolvimento estava mais voltado a produção para subsistência. Era uma relação entre quem produzia que se dava através da troca de produtos.
          As classe sociais que se configuraram nesta época se dividiram entre a classe dos proprietários e dos não proprietários. Desde então, passou-se a existir uma relação de poder entre os homens que desconstrói o fundamento ontológico inicial em que o trabalho definia a essência humana, pois o proprietário, ou o patrão, aquele com o poder econômico maior passou a dominar os espaços e a viver através do trabalho realizado pelo não- proprietário, ou peão. Isso significa dizer que os homens menos favorecidos trabalhavam para manter aqueles que mais posse tinha.
          É importante lembrar que a relação de poder econômico que diferenciava patrões e peões igualmente imperava nas mais diversas esferas de vida da classe trabalhadora que sentiam-se inferiores de ideias, de pensamentos, de inteligência e sujeitavam-se ao trabalho escravista como forma de sobrevivência.
          Logicamente que essa divisão dos homens em classes provocaria uma divisão na educação. Houve então, a constituição de modalidades separadas de educação. Uma então, destinada a classe dos proprietários identificada como a educação dos homens livres, e a outra para a classe não- proprietária, identificada como a educação dos escravos e serviçais. (Saviani, 2007, p. 155).
          No auge desta divisão de classes nasceu a escola. Desta forma a educação para a elite era baseada no desenvolvimento intelectual, na arte das palavras e no exercício físico de caráter lúdico ou militar. Enquanto aos pobres era oferecida a educação assimilada ao próprio processo de trabalho.
          Sendo assim, a escola pensada para atender a classe dominante, se perpetuou na história como uma instituição de domínio em se tratando de processos educativos, que valoriza a forma e organização escolar a partir da exigência da classe dominante.
          O desenvolvimento da sociedade em classe, especialmente nas suas formas escravistas e feudal, consumou a separação entre educação e trabalho, (Saviani, 2007, p, 157) consequentemente também manifestou-se esta divisão entre a escola e a produção.
          A divisão entre escola e produção vai refletir na separação que foi se processando ao longo da história entre trabalho manual e trabalho intelectual. Ou seja, a escola foi posta como trabalho intelectual a qual tem a função de preparar homens da elite para serem lideranças com poder de domínio da palavra, do conhecimento de regras e fenômenos naturais.
          Enquanto que o trabalho manual não era necessário preparo escolar era dirigido a classe da produção. Bastava o trabalhador realizar o seu ofício e seguir a orientação do mestre de ofício que já adquiria domínio sobre o trabalho.
          Mais tarde com a demanda da produção houve migração de pessoas do campo para as cidades à procura de trabalho oferecida pelas indústrias que cresciam aceleradamente. Com isso, houve também a exigência de que não mais bastava ao homem a formação inicial, passou-se a exigir do trabalhador o aprimoramento técnico para executar máquinas.
          Com isso o trabalho humano passa a ser mecanizado e automático, sem a necessidade de pensar muito para produzir. Bastava saber conduzir a máquina que o produto ficava pronto. Assim, com a demanda cada vez maior da industrialização a escola primária foi universalizada, promovendo a socialização dos indivíduos nas formas de convivência próprios da sociedade moderna e familiarizando os homens aos códigos formais, capacitando-os a integrar o processo de produção.  
          A partir desta introdução das máquinas na produção não era suficiente ao homem apenas manuseá-la com facilidade, então foi necessário saber como arrumá-los, ajustar, dar manutenção, daí a exigência de qualificações específicas que veio através dos cursos profissionalizantes oferecidos pelas escolas sobre determinações puramente industriais. Era então, necessário formar para se ter mão de obra.
          Houve então, uma escolarização em massa em que ao trabalhador era oferecida a instrução baseada na formação limitada à execução de tarefas, dispensando o entendimento de fundamentos teóricos; enquanto que a preparação da elite se baseava no domínio teórico amplo o qual possibilitava-o atuar como chefes em diferentes setores da sociedade.
          Estabeleceu-se nitidamente neste período da Revolução Industrial uma forte divisão entre as classe sociais, a partir da proposta dualista de escolas profissionais para os trabalhadores e as “escolas de Ciências e Humanidades” (Saviani, 2007) para os futuros dirigentes. Esta formação diferenciada oferecida nas escolas incrementava ainda mais uma relação de diferenças entre as classes em que de um lado tinha-se o privilégio e do outro, aquele que nasceu na condição de operário ali deveria continuar.

Referência
SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação v. 12 n. 34 jan./abr. 2007


Nenhum comentário:

Postar um comentário