Sobre
a história e a teoria da forma escolar
Por:
Lucimara De Castro Bueno
O artigo se propõe a fazer
uma análise sócio histórica sobre a forma escolar considerando o ensino da
França do século XVIII, para a análise os autores se pautam nas várias transformações
históricas ocorridas no decorrer dos anos. Discorrem os processos sociais e
educativos em meio a uma necessária mudança na forma escolar que traz à escola
polêmicas e posições exacerbadas já faz um bom tempo.
Na
idade média ou antiga sociedade “aprender” se fazia “por ver fazer e ouvir
dizer” (Vincent, 2001). Isso acontecia entre camponeses, artesãos ou nobres. Ou
seja, o processo educativo das crianças nesta época dava-se através da
participação das atividades em família.
Aprender
neste período era relacionado ao fazer. Aos indivíduos era disponibilizados os
trabalhos ou afazeres aos quais as famílias se dedicavam e neste meio acontecia
o aprendizado.
Houve
então a necessidade de aprender um educação mais formal, criou-se a escola. De
certa forma este tipo de escolarização foi resistido pelos grupos sociais,
especialmente pela elite que exigia uma escola concedida apenas para atender a
suas demandas.
A
escola passa a ser organizada a partir das relações sociais em que o Mestre de
escola (Vincent, 2001) realizava o seu trabalho em um espaço apropriado e em um
tempo específico; o tempo escolar, simultaneamente como período de vida, como
tempo no ano e como emprego do tempo cotidiano.
A
relação entre o mestre e o aluno estabelecida no processo do ensinar e aprender
se torna conhecida como relação pedagógica. Para a época era um tipo de relação
diferente e por isso, se autonomizou em relação às outras relações sociais.
Sendo
então cada vez mais as práticas escolares influenciadas pelas transformações
ocorridas na sociedade oferece-se a educação ao povo, no final do século XVII,
que no entanto, para exercerem os ofícios que lhes seriam atribuídos na
sociedade de produção, podiam realizá-los sem os “saberes” transmitidos pela
escola.
Sob
influência dos poderes religiosos a escola procura destinar a educação ao
“povo” de forma a obter a submissão, a obediência. Nesta época houve a
introdução do catecismo com a Reforma e a Contra Reforma que utilizava-se de
recursos escolares como manuais, lições, questões e respostas que deveriam ser
decoradas para serem aprendidas. Não era comum o diálogo entre o mestre e o
aluno. Havia um distanciamento, regras constitutivas da ordem escolar que eram
impostas a todos, até mesmo ao próprio mestre.
Nesta
concepção percebe-se a escola com a função de “transmitir saberes e saber
fazer” - sendo que os “Métodos Pedagógicos” (Vincent, 2001) garantiam a
eficácia desta transmissão, que dava-se através das disciplinas escolares num
processo de cópia, leitura e decoreba.
A
escola preparava a criança para tornar-se homens para servir o Estado,
afeiçoado ao seu país, homens submissos, sujeitos a qualquer forma de poder. A
escola estava fundamentalmente ligada a formas de exercícios de poder, ou seja,
exerce um papel político porque possui o poder das palavras na relações sociais
e da escritura diante de um povo desprestigiado economicamente e
culturalmente.
Pode-se
perceber que a forma escolar possui características definidoras de sua forma
que se constitui a partir da escola como espaço específico separados das outras
práticas sociais, vincula-se então, a saberes objetivados. (Vincent, 2001).
Neste caso a escola se torna o ponto de passagem obrigatório para que os
indivíduos que se destinam a tipos de atividades e aposição social muito
diferente de sua relação inicial.
Outra
características que define a forma escolar é a escola e a pedagogização das
relações sociais de aprendizagem que estão ligadas aos saberes escriturais
formalizados da escola. A forma como o conhecimento é abordado faz com que se
delimite a maneira de aprender e de ensinar. Neste tipo de escola tudo é
escrito, previsto, controlado, codificado, fazendo com que o ensino se torne
pouco interessante e fastidioso à criança.
Ainda
dentro da forma escolar há que se falar sobre a relação social estabelecida
pela escola com a sociedade de maneira geral. A escola não se abre para os
saberes encontrados na fora da escola, não valoriza o conhecimento que o aluno
traz de sua vivência e isso torna os saberes e práticas escolares serem
superados pelas práticas sociais o que torna a aprendizagem do ler e do
escrever sem muito prestígio.
Podemos
notar diante disso na forma escolar que a escola é uma instituição que em seu
processo de trabalho sempre cedeu lugar as formas de exercício de poder. Isso
ocorre deste a relação aluno e professor até chegar ao diretor, secretário de
educação etc. Neste caso, haverá sempre um poder superior ao outro, no qual
todos devem obedecer cumprindo as regras estabelecidas por eles. A interação
neste caso, era limitada. Se formava sujeitos disciplinados e ao mesmo tempo
adestrados que eram conhecidos como inteligentes.
Para
concluir as características da forma escolar podemos descrever a escola como
aquela que objetiva a ensinar a falar e escrever conforme as regras
gramaticais, ortográficas, estilísticas etc. (Vincent, 2001). Era portanto, o
lugar de aprendizagem da língua, ou seja, para se obter acesso ao aprendizado
escolar era preciso dominar a língua escrita, caso contrário, o sujeito era
excluído das relações sociais escolares.
Percebemos a partir disso que há uma
distanciamento e um poder muito considerável da forma escolar sobre as relações
sociais de maneira geral na escola, o que constitui desde há muito tempo o
fracasso escolar. Pois, no processo de ensino a escola é a instituição
referência, todos os indivíduos que procuram uma formação, seja geral ou
profissional precisa da escola. Acontece que a escola em sua forma continua a
mesma de praticamente trinta anos possui um currículo isolado que acaba
dividindo as classes e não compartilha dos saberes de seus alunos daí o
desestímulo e o baixo gosto para frequentar a escola todo dia.
Para
superar esta forma escolar que evoca na crise da escola as reformas
institucionais e pedagógicas sempre estão sendo pensadas para dar mais
credibilidades a instituição da escola. Porém há predominância da forma escolar
que ainda hoje constitui de um universo separado para a infância; o uso de
regras na aprendizagem; a organização racional do tempo; a multiplicação e a
repetição dos exercícios que leva o aluno apenas a aprender conforme as regras.
Sendo
assim, percebemos que nas práticas socializadoras há numerosos elementos e
traços da forma escolar, neste caso, a sociedade está escolarizada segundo o
modelo da forma escolar até mesmo nos domínios alheios ao currículo consagrado
das escolas de cultura geral ou de formação profissional. Ou seja, a sociedade
foi e está sendo escolarizada seguindo o modelo da forma escolar, se não temos
homens pensantes na sociedade, se temos muita corrupção, muita falta de
tolerância entres as pessoas grande parte pode ter sido pela escola
negligenciar o debate sobre tais temas.
Quanto
mais a população se escolariza maior são as exigências e a necessidade de
transformações em sua forma escolar porque a predominância da escola acarreta
exigências maiores e mais diversificada em relação `a escolarização.
Referência:
VINCENT, Guy; LAHIRE, Bernard; THIN, Daniel.
Sobre a história e a teoria da forma escolar. Educação em Revista. Belo
Horizonte, n. 33, p. 7-47- Junho. 2001.
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