quarta-feira, 17 de outubro de 2018


Sobre a história e a teoria da forma escolar
          Por: Lucimara De Castro Bueno
O artigo se propõe a fazer uma análise sócio histórica sobre a forma escolar considerando o ensino da França do século XVIII, para a análise os autores se pautam nas várias transformações históricas ocorridas no decorrer dos anos. Discorrem os processos sociais e educativos em meio a uma necessária mudança na forma escolar que traz à escola polêmicas e posições exacerbadas já faz um bom tempo.
          Na idade média ou antiga sociedade “aprender” se fazia “por ver fazer e ouvir dizer” (Vincent, 2001). Isso acontecia entre camponeses, artesãos ou nobres. Ou seja, o processo educativo das crianças nesta época dava-se através da participação das atividades em família.
          Aprender neste período era relacionado ao fazer. Aos indivíduos era disponibilizados os trabalhos ou afazeres aos quais as famílias se dedicavam e neste meio acontecia o aprendizado.
          Houve então a necessidade de aprender um educação mais formal, criou-se a escola. De certa forma este tipo de escolarização foi resistido pelos grupos sociais, especialmente pela elite que exigia uma escola concedida apenas para atender a suas demandas.
          A escola passa a ser organizada a partir das relações sociais em que o Mestre de escola (Vincent, 2001) realizava o seu trabalho em um espaço apropriado e em um tempo específico; o tempo escolar, simultaneamente como período de vida, como tempo no ano e como emprego do tempo cotidiano.
          A relação entre o mestre e o aluno estabelecida no processo do ensinar e aprender se torna conhecida como relação pedagógica. Para a época era um tipo de relação diferente e por isso, se autonomizou em relação às outras relações sociais.
          Sendo então cada vez mais as práticas escolares influenciadas pelas transformações ocorridas na sociedade oferece-se a educação ao povo, no final do século XVII, que no entanto, para exercerem os ofícios que lhes seriam atribuídos na sociedade de produção, podiam realizá-los sem os “saberes” transmitidos pela escola.
          Sob influência dos poderes religiosos a escola procura destinar a educação ao “povo” de forma a obter a submissão, a obediência. Nesta época houve a introdução do catecismo com a Reforma e a Contra Reforma que utilizava-se de recursos escolares como manuais, lições, questões e respostas que deveriam ser decoradas para serem aprendidas. Não era comum o diálogo entre o mestre e o aluno. Havia um distanciamento, regras constitutivas da ordem escolar que eram impostas a todos, até mesmo ao próprio mestre.
          Nesta concepção percebe-se a escola com a função de “transmitir saberes e saber fazer” - sendo que os “Métodos Pedagógicos” (Vincent, 2001) garantiam a eficácia desta transmissão, que dava-se através das disciplinas escolares num processo de cópia, leitura e decoreba.
          A escola preparava a criança para tornar-se homens para servir o Estado, afeiçoado ao seu país, homens submissos, sujeitos a qualquer forma de poder. A escola estava fundamentalmente ligada a formas de exercícios de poder, ou seja, exerce um papel político porque possui o poder das palavras na relações sociais e da escritura diante de um povo desprestigiado economicamente e culturalmente. 
          Pode-se perceber que a forma escolar possui características definidoras de sua forma que se constitui a partir da escola como espaço específico separados das outras práticas sociais, vincula-se então, a saberes objetivados. (Vincent, 2001). Neste caso a escola se torna o ponto de passagem obrigatório para que os indivíduos que se destinam a tipos de atividades e aposição social muito diferente de sua relação inicial.
          Outra características que define a forma escolar é a escola e a pedagogização das relações sociais de aprendizagem que estão ligadas aos saberes escriturais formalizados da escola. A forma como o conhecimento é abordado faz com que se delimite a maneira de aprender e de ensinar. Neste tipo de escola tudo é escrito, previsto, controlado, codificado, fazendo com que o ensino se torne pouco interessante e fastidioso à criança.
          Ainda dentro da forma escolar há que se falar sobre a relação social estabelecida pela escola com a sociedade de maneira geral. A escola não se abre para os saberes encontrados na fora da escola, não valoriza o conhecimento que o aluno traz de sua vivência e isso torna os saberes e práticas escolares serem superados pelas práticas sociais o que torna a aprendizagem do ler e do escrever sem muito prestígio.
          Podemos notar diante disso na forma escolar que a escola é uma instituição que em seu processo de trabalho sempre cedeu lugar as formas de exercício de poder. Isso ocorre deste a relação aluno e professor até chegar ao diretor, secretário de educação etc. Neste caso, haverá sempre um poder superior ao outro, no qual todos devem obedecer cumprindo as regras estabelecidas por eles. A interação neste caso, era limitada. Se formava sujeitos disciplinados e ao mesmo tempo adestrados que eram conhecidos como inteligentes.
          Para concluir as características da forma escolar podemos descrever a escola como aquela que objetiva a ensinar a falar e escrever conforme as regras gramaticais, ortográficas, estilísticas etc. (Vincent, 2001). Era portanto, o lugar de aprendizagem da língua, ou seja, para se obter acesso ao aprendizado escolar era preciso dominar a língua escrita, caso contrário, o sujeito era excluído das relações sociais escolares.
          Percebemos a partir disso que há uma distanciamento e um poder muito considerável da forma escolar sobre as relações sociais de maneira geral na escola, o que constitui desde há muito tempo o fracasso escolar. Pois, no processo de ensino a escola é a instituição referência, todos os indivíduos que procuram uma formação, seja geral ou profissional precisa da escola. Acontece que a escola em sua forma continua a mesma de praticamente trinta anos possui um currículo isolado que acaba dividindo as classes e não compartilha dos saberes de seus alunos daí o desestímulo e o baixo gosto para frequentar a escola todo dia.
          Para superar esta forma escolar que evoca na crise da escola as reformas institucionais e pedagógicas sempre estão sendo pensadas para dar mais credibilidades a instituição da escola. Porém há predominância da forma escolar que ainda hoje constitui de um universo separado para a infância; o uso de regras na aprendizagem; a organização racional do tempo; a multiplicação e a repetição dos exercícios que leva o aluno apenas a aprender conforme as regras.
          Sendo assim, percebemos que nas práticas socializadoras há numerosos elementos e traços da forma escolar, neste caso, a sociedade está escolarizada segundo o modelo da forma escolar até mesmo nos domínios alheios ao currículo consagrado das escolas de cultura geral ou de formação profissional. Ou seja, a sociedade foi e está sendo escolarizada seguindo o modelo da forma escolar, se não temos homens pensantes na sociedade, se temos muita corrupção, muita falta de tolerância entres as pessoas grande parte pode ter sido pela escola negligenciar o debate sobre tais temas.
          Quanto mais a população se escolariza maior são as exigências e a necessidade de transformações em sua forma escolar porque a predominância da escola acarreta exigências maiores e mais diversificada em relação `a escolarização.

Referência:

VINCENT, Guy; LAHIRE, Bernard; THIN, Daniel. Sobre a história e a teoria da forma escolar. Educação em Revista. Belo Horizonte, n. 33, p. 7-47- Junho. 2001.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018


TRABALHO E EDUCAÇÃO
Por: Lucimara De Castro Bueno
               Para compreender os fundamentos ontológicos e históricos do trabalho e educação, Saviani (2007) nos deixa esclarecido que estes fundamentos na verdade se constroem, em conjunto, uma vez que é através do trabalho que o homem se constitui como ser. Ou seja, o trabalho é para o homem um fundamento ontológico que o transforma, que o faz ter sentido a sua existência. É através do trabalho que o homem pode pensar, agir e produzir, sendo portanto, um processo educativo. Sendo assim, a origem da educação coincide, com a origem do homem (Saviani, 2007)
          Ao mesmo tempo em que o trabalho e a educação são fundamentos do homem enquanto ser, também é histórico porque se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo do tempo.
          Neste sentido trabalho e educação eram para as comunidades primitivas fundamentos que constituía a identidade do homem, pois dava-se de tal forma que os homens aprendiam a produzir sua existência no próprio ato de produzi-la. Tudo acontecia coletivamente, aprendiam trabalhar trabalhando, lidando com a natureza, relacionando-se com os outros seres humanos, eles mesmos educavam-se e transmitiam conhecimentos as futuras gerações. (Saviani, 2007).
          No entanto, houve uma separação da essência dos fundamentos do trabalho e da educação a partir da divisão dos homens em classe social, resultado do desenvolvimento da produção que começava a se expandir. Sobre isso é importante lembrar que este desenvolvimento estava mais voltado a produção para subsistência. Era uma relação entre quem produzia que se dava através da troca de produtos.
          As classe sociais que se configuraram nesta época se dividiram entre a classe dos proprietários e dos não proprietários. Desde então, passou-se a existir uma relação de poder entre os homens que desconstrói o fundamento ontológico inicial em que o trabalho definia a essência humana, pois o proprietário, ou o patrão, aquele com o poder econômico maior passou a dominar os espaços e a viver através do trabalho realizado pelo não- proprietário, ou peão. Isso significa dizer que os homens menos favorecidos trabalhavam para manter aqueles que mais posse tinha.
          É importante lembrar que a relação de poder econômico que diferenciava patrões e peões igualmente imperava nas mais diversas esferas de vida da classe trabalhadora que sentiam-se inferiores de ideias, de pensamentos, de inteligência e sujeitavam-se ao trabalho escravista como forma de sobrevivência.
          Logicamente que essa divisão dos homens em classes provocaria uma divisão na educação. Houve então, a constituição de modalidades separadas de educação. Uma então, destinada a classe dos proprietários identificada como a educação dos homens livres, e a outra para a classe não- proprietária, identificada como a educação dos escravos e serviçais. (Saviani, 2007, p. 155).
          No auge desta divisão de classes nasceu a escola. Desta forma a educação para a elite era baseada no desenvolvimento intelectual, na arte das palavras e no exercício físico de caráter lúdico ou militar. Enquanto aos pobres era oferecida a educação assimilada ao próprio processo de trabalho.
          Sendo assim, a escola pensada para atender a classe dominante, se perpetuou na história como uma instituição de domínio em se tratando de processos educativos, que valoriza a forma e organização escolar a partir da exigência da classe dominante.
          O desenvolvimento da sociedade em classe, especialmente nas suas formas escravistas e feudal, consumou a separação entre educação e trabalho, (Saviani, 2007, p, 157) consequentemente também manifestou-se esta divisão entre a escola e a produção.
          A divisão entre escola e produção vai refletir na separação que foi se processando ao longo da história entre trabalho manual e trabalho intelectual. Ou seja, a escola foi posta como trabalho intelectual a qual tem a função de preparar homens da elite para serem lideranças com poder de domínio da palavra, do conhecimento de regras e fenômenos naturais.
          Enquanto que o trabalho manual não era necessário preparo escolar era dirigido a classe da produção. Bastava o trabalhador realizar o seu ofício e seguir a orientação do mestre de ofício que já adquiria domínio sobre o trabalho.
          Mais tarde com a demanda da produção houve migração de pessoas do campo para as cidades à procura de trabalho oferecida pelas indústrias que cresciam aceleradamente. Com isso, houve também a exigência de que não mais bastava ao homem a formação inicial, passou-se a exigir do trabalhador o aprimoramento técnico para executar máquinas.
          Com isso o trabalho humano passa a ser mecanizado e automático, sem a necessidade de pensar muito para produzir. Bastava saber conduzir a máquina que o produto ficava pronto. Assim, com a demanda cada vez maior da industrialização a escola primária foi universalizada, promovendo a socialização dos indivíduos nas formas de convivência próprios da sociedade moderna e familiarizando os homens aos códigos formais, capacitando-os a integrar o processo de produção.  
          A partir desta introdução das máquinas na produção não era suficiente ao homem apenas manuseá-la com facilidade, então foi necessário saber como arrumá-los, ajustar, dar manutenção, daí a exigência de qualificações específicas que veio através dos cursos profissionalizantes oferecidos pelas escolas sobre determinações puramente industriais. Era então, necessário formar para se ter mão de obra.
          Houve então, uma escolarização em massa em que ao trabalhador era oferecida a instrução baseada na formação limitada à execução de tarefas, dispensando o entendimento de fundamentos teóricos; enquanto que a preparação da elite se baseava no domínio teórico amplo o qual possibilitava-o atuar como chefes em diferentes setores da sociedade.
          Estabeleceu-se nitidamente neste período da Revolução Industrial uma forte divisão entre as classe sociais, a partir da proposta dualista de escolas profissionais para os trabalhadores e as “escolas de Ciências e Humanidades” (Saviani, 2007) para os futuros dirigentes. Esta formação diferenciada oferecida nas escolas incrementava ainda mais uma relação de diferenças entre as classes em que de um lado tinha-se o privilégio e do outro, aquele que nasceu na condição de operário ali deveria continuar.

Referência
SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação v. 12 n. 34 jan./abr. 2007