quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A SENHORA DE SETENTA E POUCOS ANOS


           
            Texto escrito ainda sobre o dia 08 de Dezembro de 2016.
           
            Amanheceu o dia em POA. Eram 6 horas e 15 minutos da manhã, ao abrir os olhos dei de cara com pingos de chuva que escorriam mansamente no vidro da janela do ônibus. Um céu nublado, carregado de nuvens a explodir de tanta água. Barulhos de motor de carros e burburinhos ao longe. Olho para o lado esquerdo vejo uma linda guria de pele clara e cabelos loiros que dormia serenamente, era minha colega Caci que viajava ao meu lado. Tanto pra mim quanto pra ela estávamos inseridas num universo totalmente novo, mas profundamente pessoal. Éramos ali, pelo jeito, as novinhas. Em seguida olho para meu lado direito dou de cara com uma senhora de cabelos brancos e pele cheia de rugas que dormia de boca aberta e roncava. Passei minutos contemplando aquela pele delicada que carregava as marcas do tempo. Fiquei a pensar naquele momento, como serei quando tiver meus setenta e poucos anos, imagino ser a idade daquela senhora.
            Um sentimento de revolta me surgiu bem neste instante em que fitava aquela senhora. Com o olhar mareado, fiquei olhando ela dormir. Ela dormia, parecia estar tranquila, mas eu não estava, fiquei aflita quando acordei e comecei a pensar... o que estaria fazendo ali naquele ônibus uma senhora com aquela idade? Certamente em sua cama repousaria muito mais tranquila e confortável, poderia deitar, esticar sua coluna e suas pernas já cansadas pelo tempo. Mas ela estava ali.
            Aos poucos, meio sonolenta ainda, fui observando outras tantas pessoas que cochichavam baixinho umas com as outras, todas eram mulheres, mas o que tantas mulheres juntas em um único ônibus estariam fazendo? Fiquei então pensando... Poderia ser uma viagem de final de ano ou um encontro de velhas amigas, destas em que se realiza uma excursão para praticar o lazer, para descansar e tomar uma cervejinha juntas, jogar conversa fora e tomar um sol no final da tarde com os pés dentro da água. Poderia ser. Que maravilhoso se fosse! Mas, não era.
            Fui aos poucos voltando ao meu estado de consciência e ouvi a conversa que veio do banco da frente: “Olha só, Mari, pelo movimento de ônibus já dá para perceber como será nossa assembleia”. E a outra pessoa disse: “É, pelo jeito será um pingo de gente como da outra vez!”.
            Neste instante, sai completamente do meu estágio de dormência. Pude então perceber que a maioria daquelas mulheres que ali estavam incluindo a senhora de setenta e poucos anos, já haviam feito destas viagens tantas e tantas outras vezes.
            Percebi que a chuva foi enfraquecendo e o sol entre as nuvens dava o ar da graça. Fiquei feliz, pois na minha mochila não carregava nenhuma capa de chuva ou outra roupa caso me molhasse, nem meu guarda-chuva não estava ali. Se tomasse chuva teria que passar o dia molhada. O que seria bem desagradável, não bastasse o desagrado que era estar viajando para aquele objetivo o qual estávamos.
            Porto Alegre me despertou. Tanta coisa para olhar. Tanto progresso, prédios, pessoas, carros, lojas... Cheguei a pensar na cidade onde moro, mas logo desisti.
            Então mais do que ligeiro voltei meus pensamentos a nossa causa do dia. Estávamos em POA para tratar de um assunto que nos deixa cheia de tristeza e ao mesmo tempo revolta. Tristeza por saber que trabalhamos de segunda a segunda e ainda temos que pedir clemência para recebermos nosso salário em dia e revolta por não sermos valorizadas pela classe política deste Rio Grande. Revolta por saber que nos formamos na graduação, fizemos uma, duas pós-graduação, nossa vida é repleta de estudos, de formação e mesmo assim somos a classe que menos salário recebe. Revolta e tristeza dois sentimentos que se fundem e nos faz refletir sobre a maneira de governar de cada um.
            O calor é insuportável. É a sede, é o cansaço no corpo e na mente que tenta nos derrubar, mas lá estávamos em frente ao palácio do governo, na Praça da Matriz. Éramos poucos, mas o importante é que lá estávamos e aquela senhora de setenta e poucos anos também estava lá. Quando a vi, no meio daquela gente, meu corpo esqueceu o cansaço. Não senti mais nada, além da vontade enorme de voltar quantas e quantas vezes fossem necessárias para lutar por meus direitos. E pelo visto a pouco, com a aprovação da PEC 55- a PEC da maldade, terei sim, ou melhor, teremos sim, que muitas e muitas vezes voltar à Praça da Matriz. Até nossa juventude acabar pelo jeito, ou até as rugas surgirem em nosso rosto e assim quem sabe nos dê a sorte de se aposentar nos meus/nos seus setenta e poucos anos.




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